quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Filosofia da Arte.



Elementos da percepção.
Perceber é ser capaz de identificar o modo como a realidade aparece e ter alguma reação subjetiva a ela, ou seja, uma reação pessoal, individual.
Há muito tempo, a filosofia aborda as percepções em diferentes áreas de reflexão. A Teoria do Conhecimento, por exemplo, investiga se elas são confiáveis ou não, mas quer elas sejam realidades ou aparências, quer sejam, essências ou fenômenos, o fato de serem ou não agradáveis e a possibilidade de serem universais ou particulares também intrigaram os filósofos.
Por isso, além de investigar, por exemplo, se pessoas diferentes veriam uma imagem semelhante ao contemplarem determinado objeto, eles também entraram no universo do gosto para descobrir se tal imagem seria agradável ou desagradável para todas e por quê. Assim, inauguraram uma nova área da Filosofia, para discutir questões ligadas à sensibilidade, ao gosto e à arte.
Diante dessa informação, é possível que você sem lembre do ditado popular, segundo o qual “gosto não se discute”. No entanto, vale destacar que ele não deve ser compreendido literalmente, ou seja, ele não significa que essa discussão não exista na prática e, sim, que, de tão complexa, a maioria prefere abandoná-la. Entretanto, será visto a seguir que, no desenrolar da História, essa não tem sido a atitude dos filósofos.
O termo sensibilidade aplica-se à faculdade de sentir e de perceber sensorialmente a realidade que nos cerca. Decorrem dessa capacidade as sensações físicas, bem como a ela se relacionam as emoções e os sentimentos.
Gostar ou não gostar.
Por que você gosta de coisas que outras detestam ou tem gosto parecidos com os de alguns – principalmente aqueles que têm idade próxima à sua e fazem parte do seu ambiente cultural? As qualidades que pertencem às coisas são objetivas, e as formas de perceber são subjetivas, ou seja, dependem do sujeito que percebe. Por isso, mudam para cada espécie ou indivíduo. Assim sendo, a faculdade de perceber, por exemplo, a cor do céu – que é azul – é universal, enquanto a experiência de apreciar essa cor ou detestá-la é particular. Ademais, as pessoas encontram dificuldades para justificar, por meio de argumentos, as suas opiniões favoráveis ou desfavoráveis sobre determinado prazer ou desprazer para cada um. E existe uma dificuldade ainda maior no que diz respeito a justificar a impressão de que algo é belo ou feio.
Em busca do belo.
 Ao escolher objetos, as pessoas seguem critérios que tornam uns preferíveis a outros, como o valor material e a utilidade, mas também a perfeição, o caráter agradável ou a beleza. Isso mostra que elas não são indiferentes ao belo e que admirar é uma das possíveis formas de contemplar o mundo – assim como investigar ou interpretar.
Além disso, a busca do belo surge até nos aspectos mais corriqueiros da vida humana. Basta observar o cuidado das pessoas com a própria aparência e a das coisas que produzem ou adquirem. Nem sempre elas associam a beleza à utilidade ou a qualquer outro valor, desejando certas coisas simplesmente por serem bonitas. Embelezam o corpo, mesmo com sacrifícios – o que levado a extremos gera a chamada da ditadura da beleza; buscam vestir belas roupas, mesmo que elas não as protejam dos excessos do clima; decoram suas casas, mesmo que isso não as tornem mais práticas ou confortáveis.
É possível definir o belo?
Na Antiguidade grega, Platão definia o belo como a ideia perfeita que daria forma a todas as coisas bonitas. Entendia a experiência do belo como sendo uma manifestação da alma e não da sensibilidade física. Associava a ideia do belo às ideias de bom e verdadeiro, afastando-a, por isso, das representações artísticas. Platão não era a favor da arte, segundo ele, a arte era uma cópia das coisas deste mundo, do Mundo Sensível.  Este mundo, o Mundo Sensível, era uma cópia do mundo perfeito, o Mundo das Ideias. O filósofo dizia, então, que a arte não leva o ser humano à verdade e que a arte não faz o homem alcançar o Mundo das Ideias, local este que se encontra a verdade de todas as coisas. Mas, ele diz que o belo se liga ao bom e ao verdadeiro. Algo belo, para o Platão, se encontrava no Mundo das Idéias, lugar da perfeição, do verdadeiro e do bom. O belo é diferente da arte. Assim sendo, a única arte que Platão aceitaria, então, seria a arte que criou as ideias perfeitas, verdadeiras e boas que se encontra no Mundo das Ideias.
Aristóteles, também da Antiguidade grega, destacava a relação da beleza com a justa medida, a proporção, a simetria e a harmonia, admitindo a presença do belo também na arte e na ficção. Para esse filósofo, algo belo era algo proporcional em não o objeto de arte desproporcional. Os elementos que compõem a obra de arte - por exemplo, o ser humano - devem estar em simetria, em harmonia, ou seja, o nariz proporcional à perna que deve estar proporcional ao braço que deve ser proporcional aos ouvidos que deve ser proporcional às unhas e estas proporcionais aos pés. O belo, então, para Aristóteles estava relacionado também à matemática.
Na Idade Média, a noção do belo atrelou-se a questões teológicas, como a tese de que toda a realidade e a arte se constituem como criação divina. Nesse contexto, valorizava-se a beleza transcendente do mundo espiritual que aguardava o homem, após o término de sua jornada na Terra, para que ele pudesse desfrutas da vida eterna com Deus.
São Tomás de Aquino, na Idade Média, indicava três elementos formadores do belo: a integridade, a proporção e a claridade. Esse filósofo associava a perfeição à integridade que é a plenitude de um objeto de arte, ou seja, não falta a esse objeto de arte; associava a bondade à proporção, ou seja, todos os elementos do objeto devem estar proporcionalmente para que ele seja belo; e, associava a verdade do objeto de arte à claridade, ou seja, a evidência do objeto. Tomás de Aquino, ainda defendia que “o belo como o que agrada a visão”, isto é, a visão é citada em sua relação com o intelecto, com a razão, capaz de identificar a harmonia entre a integridade, a proporção e a claridade no objeto. Para esse filósofo, a experiência criadora do artista estava relacionada, também, à intuição humana da beleza que provém de Deus.
Immanuel Kant, no século XVIII, afirmava que “o belo é o que agrada universalmente, sem depender de um interesse ou de um conceito”. Para Kant a beleza era um dado objetivo, ou seja, ela estava presente nos próprios objetos de arte como um atributo destes, e o gosto era a faculdade humana de julgar esse dado objetivo. Os juízos de gosto – os julgamentos a partir de nossos gostos – não são lógicos, provenientes da razão, mas são estéticos, isto é, sensíveis e subjetivos. Os juízos de gosto não dependem dos conceitos, que estão na mente humana, por isso não são técnicas e práticos. Esses juízos de gosto são apenas contemplativos e isso significa que não há modelo ou norma que poderia ser utilizada para determinar previamente o que é belo e o que não é belo. Se uma pessoa diz “A escultura é bela”, Kant diria que o conceito de escultura permitirá que o interlocutor compreenda de que a pessoa está falando, mas não revelará se a borá de arte é bela ou não, pois essa característica não faz parte do conceito de estátua. Para que o interlocutor possa tecer um juízo estético é necessária a observação pessoal desse interlocutor. Kant, então, diria que o belo está presente na própria obra de arte (no objeto de arte, que é a estátua) como um atributo objetivo presente na estátua, universalmente percebido pelas pessoas.
Kant ainda irá diferenciar o belo do agradável. A principal diferença em relação ao agradável seria o fato de se buscar este último devido a um interesse, o que não ocorreria na busca do belo. Um homem poderá dizer que sua mulher é bela mesmo ela perdendo a saúde ou partes do corpo um acidente de trânsito. Mas, ele poderá deixar de amá-la, após o acidente, se tiver apenas interesse em sua mulher e ela ser agradável a ele.
Fonte: Livro Positivo, adaptado.